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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Oficinas sobre meio ambiente usam mídia para motivar alunos


Thiago Minami, especial para a Agência USP

As crianças que estudam nas redondezas do Rio Corumbataí, no interior de São Paulo, não podem nadar ou pescar nas águas poluídas. Apesar disso, muitos desconhecem a parcela própria de responsabilidade em conservar o rio limpo. Foi o que percebeu a bióloga Vivian Battaini, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, em sua pesquisa de mestrado, numa série de oito oficinas sobre educação ambiental que organizou em quatro escolas públicas da região. Para enriquecer o debate, propôs às crianças a produção de conteúdos de jornais e fanzines sobre a preservação do Corumbataí. O trabalho integra o projeto temático do Programa Biota da Fapesp “Mudanças socioambientais do estado de São Paulo e perspectivas para conservação”.
Oficinas produziram conteúdos sobre a preservação do Rio Corumbataí 

O Rio Corumbataí tem 140 quilômetros (km) de extensão, nasce no município de Analândia e desemboca em Piracicaba, abastecendo a população da cidade e de Rio Claro, entre outras da região. Enfrenta problemas como poluição, assoreamento e queda de árvores. Por que o rio está poluído? De quem é a responsabilidade? É possível denunciar quem, por exemplo, joga detritos na água? Essas foram algumas das questões que Vivian levantou com os alunos, todos do segundo ciclo do ensino fundamental.
“O estudo da bacia hidrográfica local estimula um processo social de responsabilidade e vínculos com o ambiente físico em que vivem e, dessa forma, estimula o pertencimento. Esse é um sentimento importante que potencializa o agir na comunidade”, escreve Vivian na dissertação intitulada Educomunicação socioambiental no contexto escolar e conservação da bacia hidrográfica do Rio Corumbataí.
A educação ambiental está prevista nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), que dão as diretrizes para o ensino básico brasileiro. “As escolas tratavam a educação ambiental por meio de temas como plantar uma árvore e cuidar do próprio lixo. Mas faltava olhar para o meio em que os alunos estavam inseridos”, diz a pesquisadora, que faz parte do grupo de pesquisa e extensão em educomunicação da Esalq coordenado pela professora Laura Alves Martirani, que também orientou a pesquisa. O projeto também inclui a gestão de um blog (www.educorumbatai.blogspot.com ), que conta com a participação de estudantes universitários, e um documentário sobre a problemática dos recursos hídricos na atualidade e na região estudada.
Segundo Vivian, o trabalho mais difícil foi na escola que pertencia à região mais pobre entre as visitadas. A falta de infraestrutura local, como ruas sem asfalto e transporte precário, despertava nos alunos a sensação de que seus direitos não estavam sendo cumpridos. “Por isso, eles tinham dificuldade em aceitar que pertencem ao local e possuem deveres a cumprir, como a preservação do rio”, conta.


Educomunicação
O uso da educomunicação nas oficinas teve por objetivo desenvolver o olhar crítico dos alunos sobre a sociedade e interligá-los ao contexto social e midiático em que estão. Deste modo, criam consciência sobre o próprio papel na conservação dos recursos naturais da região e desenvolvem habilidades para participar de modo mais efetivo na realidade social.

Para trabalhar elementos da mídia impressa em sala de aula, Vivian fez parceiras com jornais locais e levou profissionais da área para conversar com a garotada. Analisou textos de publicações conhecidas e perguntou se alguma delas abordava questões relativas ao Rio Corumbataí. Diante da resposta negativa, propôs que os alunos levassem suas opiniões a público.
“A maior dificuldade foi despertar neles a vontade de escrever”, diz. A solução foi estimulá-los a pôr no papel as próprias ideias e opiniões. O objetivo não era chegar a um texto jornalístico profissional e, sim, oferecer uma ferramenta de reflexão sobre o meio ambiente.
Imagem cedida pela pesquisadora

Abordagem divertida da Ciência gera interesse de alunos


Ciência Hoje das Crianças é a única revista voltada para atividades de ciência em aula 

A revista educacional “Ciência Hoje das Crianças”, oferecida pelo Ministério da Educação (MEC) para as escolas públicas e com o selo da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), é importante recurso para incentivar o estudo e leitura sobre ciência em sala de aula.  Segundo pesquisa da educadora Sheila Alves de Almeida, da Faculdade de Educação (FE) da USP, as atividades propostas pela revista, bem como seus textos teóricos, apresentam bom conteúdo e são de fácil compreensão. “A revista é muito colorida e didática. Ela trabalha textos científicos de uma maneira divertida, que induz o leitor a querer saber mais sobre o assunto”, descreve Sheila.
Sheila fez uma parceria com uma professora de uma escola municipal da periferia de Belo Horizonte, que lecionava para 26 alunos da terceira série (quarto ano). “Sugeri que ela utilizasse a revista, mas era ela quem montava as aulas, aproveitando as possibilidades da publicação da maneira que achou mais adequada”, explica a educadora. O conteúdo da aula se inspirava nos textos de várias edições da revista e podiam se originar das perguntas presentes nos artigos ou de uma matéria que interessasse aos alunos.
Foram três meses acompanhando as atividades, de setembro a novembro de 2010, totalizando dez encontros. Sheila filmou todo o trabalho pedagógico para analisar a interação das crianças com a revista e as práticas de letramento na turma.
As atividade mais recorrentes eram leituras que vinham acompanhadas de uma segunda atividade, como por exemplo um questionário. No começo do processo, as turmas eram quietas e pouco participativas. Sheila notou que, com o tempo, elas passaram a questionar mais durante as aulas, principalmente quando a atividade era a leitura de um artigo. Além disso, a postura delas na hora da fala melhorou muito. Elas se mostraram mais abertas e com maior domínio do discurso.


Letramento
“Chamamos de letramento o desenvolvimento da função da linguagem e do pensar”, coloca. As crianças desenvolveram uma rotina com a revista e isso foi crucial na evolução do repertório que elas tinham sobre assuntos científicos.

O fato de poderem levar as revistas pra casa, ler nos horários de sua escolha, fora do ambiente escolar e muitas vezes na companhia dos pais e irmãos fez com que elas criassem um vínculo com a publicação. Como disse Sheila, elas se abriram para o novo mundo, o novo dentro do universo científico.
Marco do trabalho foi quando as crianças passaram a questionar mais os assuntos 


O marco do trabalho foi quando as crianças começaram a perguntar, se mostrar interessadas pelo assunto. Isso provou a eficiência da revista em promover a discussão sobre assuntos que antes não faziam parte da gama de interesse das crianças. Desmitificar a ciência como algo chato ou simplesmente uma matéria obrigatória é um dos maiores méritos da Ciência Hoje das Crianças.

Acessibilidade
Segundo Sheila, a maioria dos professores não sabe da existência da revista nas bibliotecas escolares pois, ela é oferecida pelo MEC há mais de dez anos — sendo esta a grande compra que mantém a revista ainda em atividade. Um dos pontos de maior dificuldade para a propulsão da revista é o fato de que muito pouca gente sabe de sua existência e menos ainda conhece formas de trabalhar com esse periódico em sala de aula. “Meu desejo de estudar a revista surgiu quando eu comecei a utilizá-la. Vi sua enorme qualidade, mas percebi que meus colegas não faziam ideia do que era este material”.

Uma entrevista com as crianças e suas famílias mostrou o quanto a revista é conhecida no ambiente familiar: muito pouco. Mais de 90% dos alunos nunca tinham ouvido falar da “Ciência Hoje das Crianças”. “Nas bibliotecas, ela não está em destaque. Isso é uma grande perda, porque essa pequena mudança poderia levar muitas crianças a tomarem conhecimento da revista e, depois disso, possivelmente se interessar e se tornar um leitor assíduo, um leitor de textos informativos”, completa.
A pesquisadora ressalta a importância de um bom material na construção das aulas e sugere a revista “Ciência Hoje das Crianças” tendo em vista a qualidade do material. Enfatiza que a revista é um recurso que já é disponibilizado pelo MEC e precisa apenas ser divulgado para que os professores do ensino fundamental a utilizem e também construam outros conhecimentos sobre a linguagem científica, uma vez que a revista traz conhecimentos seguros e atuais.
A teses de doutorado Interações e práticas de letramento mediadas pela revista “Ciência Hoje das Crianças” em sala de aula foi defendida em 2011 e orientada pelo professor Marcelo Giordan, também da FE.

Fotos: Marcos Santos